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quarta-feira, 4 de julho de 2012

Retorno





Retorno

Passados mais de 15 anos, voltei à cidade onde cresci para dar um passeio. Mais precisamente, fui rever a rua onde morei por 20 anos.

Fui sozinha. Estacionei o carro quase em frente a minha antiga casa e fiquei ali parada, observando.
Tanta coisa mudou...
Novos prédios, lojas novas, um fluxo de automóveis e pessoas muito mais intenso.

Quando eu era criança, a rua era de paralelepípedos, e muitas vezes esfolei os joelhos porque caí durante as brincadeiras de esconde-esconde.

As casas não eram cercadas, e exibiam lindas roseiras em seus pátios.  Portões só serviam para que os cachorros não fugissem!

Era a tranquilidade  de uma típica cidade do interior.

Hoje o que se vê é asfalto, muitos prédios, diversos estabelecimentos comerciais que tomaram o lugar das residências, sinaleiras, paradas de ônibus, e muito, muito mais movimento.

Mas nesse retorno ao passado eu buscava algo mais. Eu queria rever as "pessoas".

Desci do carro e comecei a andar pela rua.
Lá estava o pai da minha melhor amiga, mantendo sua loja funcionando, ainda que em precárias condições.
Tudo permanecia igual ao dia da inauguração.
A única alteração foi a passagem do tempo. Nada foi investido, sequer uma pintura na parede.
A filha mais nova atendia no balcão.
 Nossa, ela já é uma moça!

 Um pouco mais adiante, avistei os dois mecânicos que me viram crescer naquela rua.
Eles sabiam da vida de todos os vizinhos e, quem sabe, da cidade inteira.
Estavam lá, parados, visivelmente marcados pelo tempo, e um pouco perdidos no alvoroço que tomou conta da rua.
A oficina, pequena,  já não reúne as condições ideais para se fazer um bom trabalho. Provavelmente por isso estavam ambos escorados na porta, só observando o vai-vem das pessoas.

Fui caminhando pela calçada e me dei conta de como ela era estreita.
Era a mesma calçada que parecia tão larga quando eu pedalava minha bicicleta de uma esquina a outra.

Durante a caminhada, cruzei por diversas pessoas. Mantinha meu passo lento para lhes dar a oportunidade de um cumprimento.

Parecia a personagem de um filme dramático, em que a protagonista retorna à terra natal depois de muitos anos e fica chocada com a realidade que encontra.

Na verdade, nem sei se fiquei chocada.
Mas experimentei emoções que não esperava.

Reconheci todas as pessoas que passaram por mim. Todas elas fizeram parte da minha vida.
Mas nenhuma delas me reconheceu.
É que o tempo passou.
Elas envelheceram.
E eu também envelheci.

Quando me mudei de lá, estava com 20 anos, no auge da juventude.
Agora, estou chegando aos 40.
Tenho marcas de expressão, cabelos brancos, e alguns quilos a mais.

Provavelmente o mesmo impacto que eu tive ao ver as pessoas envelhecidas, elas também teriam se me reconhecessem.

Foi então que meu coração se atrapalhou.
Fiquei triste, nostálgica, mas, ao mesmo tempo,  feliz.
Foi uma mistura estranha de sentimentos.

Entrei no carro, coloquei uma das minhas músicas favoritas pra tocar, e parti.

Quem sabe se, numa próxima vez, eu encontre alguém que me reconheça.

Mas, se isso não acontecer, acho que estarei preparada para lhes dizer quem eu sou.


 Di(z)Conhecida

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