Dia de baile
Moro numa cidade do interior, e hoje é dia de baile.
Quando eu era guria, os bailes eram mais frequentes, e
embora eu não tenha ido a muitos, guardo boas lembranças
dos famosos "Bailes de Debutantes".
O "Debut" era, sem
dúvida, o acontecimento do ano. As meninas escolhiam, euforicamente, suas
roupas. Todas desejando a mesma coisa: exibir o vestido mais comentado da
festa... por sua beleza, é claro.
E tinha a escolha dos pares.
Ah, essa escolha era tão difícil aos 15 anos...
Seria aquele menino que fazia seu coração disparar?
Seria o irmão mais velho, muito legal, mas que infelizmente
passava pela fase das inconvenientes espinhas?
Ou seria aquele primo gato, por quem todas as amigas
suspiravam, especialmente porque ele já ingressara na faculdade de Medicina?
Oh, que dúvida cruel!
Feitas as escolhas do vestido mais lindo e do par ideal, era
chegado o grande dia.
Via-se por toda a cidade senhoras frequentando o
supermercado com rolos nos cabelos por debaixo de lenços estampados, homens
correndo na última hora à procura de uma tinta preta para seus sapatos sociais,
e garotos pedindo "calça e camisa" emprestadas porque descobriram que
as peças usadas no baile do ano anterior já não serviam mais.
Eu a-d-o-r-a-v-a aquele clima!
Mas confesso que na tarde que antecedia a grande noite
ficava um pouco aborrecida.
É que eu literalmente "perdia" minhas amigas para
o salão de beleza, e tinha que lidar com
minha ansiedade sozinha.
Para mim, que sempre usei
cabelos curtos e não era adepta de muita maquiagem, alguns poucos minutos eram sufientes
para dar um jeitinho no visual.
Mas é claro que eu, também com
15 anos, esperava ansiosa pela noite mágica.
E ela, finalmente, chegava.
Muito tímida que eu era, gostava de ficar observando a
festa. Aliás, era o que eu mais fazia.
Ficava sentada, quietinha numa mesa, quase que "de
lado”, prestando atenção nas histórias que corriam paralelas ao baile. E elas
me fascinavam.
A menina de sobrenome tão conhecido na cidade ficara toda
"emburrada" porque seu par não soube darçar a valsa direito.
Aquela outra, de origem mais humilde, tinha lágrimas nos
olhos ao ver a emoção do pai, todo orgulhoso, realizar o sonho de
"apresentá-la à sociedade".
E havia a "descolada", que estava ali somente para
satisfazer o desejo de sua mãe, pois, se pudesse, optaria por uma viagem para
Amsterdã.
Ah, sem falar do meu encanto em ficar observando os casais
dançando no meio do salão cuidadosamente decorado.
Era quando minha imaginação voava para mais longe, ao ver
aqueles rostos e corpos colados, cujos corações batiam em uníssono ao som de
músicas românticas.
Casais tímidos, casais experientes em todos os ritmos,
casais jovens e outros ultrapassados pelas "Bodas de Prata".
Era muito lindo aquilo tudo.
Testemunhei o amor verdadeiro entre um casal onde ele, de
cabelos completamente platinados, fazia carinhos nos fios escovados de sua
amada.
Também via alguns casais frios, distantes, e me perguntava
porque estariam ali.
Dançavam por todo o salão sem que seus olhos se cruzassem,
seus rostos se tocassem, seus lábios se abrissem num sorriso sequer.
E pensava, "Que vida triste teriam eles..."
Mas havia, também, os casais "muito
alegres". Os próprios "bobos",
eu diria.
Eram aqueles que faziam do copo sua companhia
indispensável.
Mas estavam ali felizes, em clima de festa, fazendo seus
parceiros, filhos e amigos se divertirem a valer!
Curtiam aquilo tudo exatamente como devia ser: dançando sem
se preocupar com julgamentos, cantando desafinados para si mesmos, contagiando
os demais com sua alegria.
Aqueles, sim, teriam boas histórias para contar.
Aqueles, sim, faziam com que os elevados gastos com a festa
valessem a pena.
E as lembranças daqueles Bailes de Debutantes ficaram
gravadas para sempre.
As músicas, as gargalhadas, os perfumes, as cores, os
sabores, os casos contados, as lágrimas vertidas de emoção...
Tudo isso eternalizado no álbum de fotografias.
E, em cada foto, o registro de
uma emoção especial.
Para mim o baile era isso.
Ficar observando tudo, até
que aparecesse alguém que me tirasse pra dançar...
Di(z)Conhecida