Desaparecimento anunciado
A minha Tesourinha estava ali.
E ali ela estava já há algum
tempo.
Alguém a esqueceu. Provavelmente não lembrou mais qual o seu
devido lugar.
E ali ela ficou. Quietinha.
Na verdade, ela não incomodava ninguém. Às vezes, emitia um
brilho ofuscante, dependendo de como o sol refletisse em suas lâminas.
Mas "eu" sabia que ela estava ali.
Daquele jogo de "pedra, papel e tesoura", ela só
ouvia falar.
Completamente sedentária. Fazia um bom tempo de que não
cortava nada.
De uma semana para outra, só pequenas mudanças de
lugar. Mínimas, na verdade.
Era a moça da limpeza que tirava o pó que se acumulava sobre
ela.
Acostumei-me com sua presença naquele lugar. Já fazia parte
da “decoração".
Parecia tão frágil ... mas, na verdade, era forte como aço.
E então, naquela noite, eu queria estrear minha roupa
nova.
Havia nela tantas
etiquetas que mais parecia um outdoor. Etiquetas da marca, da loja, das
instruções de como lavá-la.
Todas amarradas por um
barbante.
Um “senhor” barbante, na
verdade.
Praticamente uma
"corda".
Ainda bem que eu sabia onde encontar o que precisava.
Naquela noite, minha
Tesourinha finalmente iria entrar em ação.
Mas...não é sempre assim?
Ei, cadê você, Tesourinha?
Onde foi parar?
Você estava ali, paradinha, durante todo esse tempo...porque
se esconder logo hoje?
Será que criou pernas?
Tomou "chá de sumiço"?
E agora?
Substituí-la por uma faca?
Não!
Eu quero a minha Tesourinha!
Esse é o trabalho dela.
Todas as gavetas foram abertas, todas as caixas e armários
revirados, mais de uma dúzia de pulinhos para São Longuinho e ... nada!
Mas para não perder a estréia da minha roupa nova, fui
obrigada a ceder.
A Faca, toda orgulhosa, tomou o seu lugar.
E a Tesourinha?
Nunca mais apareceu.
Ninguém sabe, ninguém viu... resolveu se esconder.
Di(z)Conhecida

Muito bom! Sutil como devem ser as metáforas!
ResponderExcluirGK
Obrigada Gugu Keller.
Excluir