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domingo, 17 de junho de 2012

Dia de Baile


Dia de baile

Moro numa cidade do interior, e hoje é dia de baile. 
Quando eu era guria, os bailes eram mais frequentes, e embora eu não tenha ido a muitos, guardo boas lembranças dos famosos "Bailes de Debutantes".
O "Debut" era, sem dúvida, o acontecimento do ano. As meninas escolhiam, euforicamente, suas roupas.  Todas desejando a mesma coisa: exibir o vestido mais comentado da festa... por sua beleza, é claro.

E tinha a escolha dos pares.
Ah, essa escolha era tão difícil aos 15 anos...

Seria aquele menino que fazia seu coração disparar? 
Seria o irmão mais velho, muito legal, mas que infelizmente passava pela fase das inconvenientes espinhas? 
Ou seria aquele primo gato, por quem todas as amigas suspiravam, especialmente porque ele já ingressara na faculdade de Medicina?
Oh, que dúvida cruel! 

Feitas as escolhas do vestido mais lindo e do par ideal, era chegado o grande dia.

Via-se por toda a cidade senhoras frequentando o supermercado com rolos nos cabelos por debaixo de lenços estampados, homens correndo na última hora à procura de uma tinta preta para seus sapatos sociais, e garotos pedindo "calça e camisa" emprestadas porque descobriram que as peças usadas no baile do ano anterior já  não serviam mais.

Eu a-d-o-r-a-v-a aquele clima!
Mas confesso que na tarde que antecedia a grande noite ficava um pouco aborrecida.
É que eu literalmente "perdia" minhas amigas para o salão de beleza, e tinha que lidar com minha ansiedade sozinha. 
Para mim, que sempre usei cabelos curtos e não era adepta de muita maquiagem, alguns poucos minutos eram sufientes para dar um jeitinho no visual.
Mas é claro que eu, também com 15 anos, esperava ansiosa pela noite mágica.
E ela, finalmente, chegava.

Muito tímida que eu era, gostava de ficar observando a festa. Aliás, era o que eu mais fazia.

Ficava sentada, quietinha numa mesa, quase que "de lado”, prestando atenção nas histórias que corriam paralelas ao baile. E elas me fascinavam.

A menina de sobrenome tão conhecido na cidade ficara toda "emburrada" porque seu par não soube darçar a valsa direito.

Aquela outra, de origem mais humilde, tinha lágrimas nos olhos ao ver a emoção do pai, todo orgulhoso, realizar o sonho  de "apresentá-la à sociedade".

E havia a "descolada", que estava ali somente para satisfazer o desejo de sua mãe, pois, se pudesse, optaria por uma viagem para Amsterdã.

Ah, sem falar do meu encanto em ficar observando os casais dançando no meio do salão cuidadosamente decorado.  
Era quando minha imaginação voava para mais longe, ao ver aqueles rostos e corpos colados, cujos corações batiam em uníssono ao som de músicas românticas.

Casais tímidos, casais experientes em todos os ritmos, casais jovens e outros ultrapassados pelas "Bodas de Prata". 
Era muito lindo aquilo tudo. 
Testemunhei o amor verdadeiro entre um casal onde ele, de cabelos completamente platinados, fazia carinhos nos fios escovados de sua amada.

Também via alguns casais frios, distantes, e me perguntava porque estariam ali.  
Dançavam por todo o salão sem que seus olhos se cruzassem, seus rostos se tocassem, seus lábios se abrissem num sorriso sequer.
E pensava, "Que vida triste teriam eles..."

Mas havia, também, os casais "muito alegres". Os próprios "bobos", eu diria. 
Eram aqueles que faziam do copo sua companhia indispensável. 
Mas estavam ali felizes, em clima de festa, fazendo seus parceiros, filhos e amigos se divertirem a valer! 
Curtiam aquilo tudo exatamente como devia ser: dançando sem se preocupar com julgamentos, cantando desafinados para si mesmos, contagiando os demais com sua alegria.
Aqueles, sim, teriam boas histórias para contar.
Aqueles, sim, faziam com que os elevados gastos com a festa valessem a pena.

E as lembranças daqueles Bailes de Debutantes ficaram gravadas para sempre.
As músicas, as gargalhadas, os perfumes, as cores, os sabores, os casos contados, as lágrimas vertidas de emoção...
Tudo isso eternalizado no álbum de fotografias.
E, em cada foto, o registro de uma emoção especial.

Para mim o baile era isso. 
Ficar observando tudo, até que aparecesse alguém que me tirasse pra dançar...

   Di(z)Conhecida





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